Pages

Subscribe:

sábado, 31 de dezembro de 2011

Reflexões de Ano Novo


Ano acabando, bom momento pra recordar tudo que vivemos durante o ano de 2011, pra muitos foi muito bom, pessoalmente eu acho que já vai tarde. Não que eu tenha sido vítima da má sorte causada por uma conjugação errada dos astros ou que as Parcas, essas nobres senhoras que detêm o fio do destino dos homens em suas mãos tenham resolvido tirar onda com a minha cara, nada disso.


Tudo que me aconteceu esse ano, tenham sido coisas boas ou ruins foram frutos de escolhas minhas e somente eu posso ser responsabilizado pelo que vivi. Das vezes que chorei, senti raiva, preferi não acordar no outro dia, dos novos amigos que fiz, dos velhos que mantive, das vezes que sorri e me alegrei, enfim tudo foi resultado de escolhas ao longo do caminho e se ao mesmo tempo me sinto aliviado por este ano estar terminando tenho comigo a consciência que se algo tem que mudar não é o ano e sim eu mesmo.


Já fui mais otimista com esse papo de “Ano novo Vida nova”, mais ainda tenho fé que tudo pode ser melhor, mas pra isso rolar não depende de uma intervenção divina, astral ou qualquer outra coisa, depende de mim. Pra que nossas vidas mudem devemos mudar primeiro, me incomoda profundamente aquele tipo de pessoa que não é capaz nem mesmo de assumir a responsabilidade pelos seus próprios erros e culpam a tudo e a todos pela vida que vive menos a si mesmo.


Bem chega de reflexões por ora, também não vou fazer promessas de fim de ano por que geralmente não as cumpro então é uma outra coisa sem sentido mas me despeço com a certeza absoluta que se não quisermos que o ano de 2012 seja como 2011 isso deve partir de nós, se não estamos conformados com as coisas ao nosso redor, devemos nos transformar com a renovação daquilo que entendemos, sabemos, devemos estar sempre prontos a aprender mais e somente assim contagiaremos outras pessoas. Ou então como diria Gabriel o Pensador: “Muda que quando a gente muda o mundo muda com a gente. A gente muda o mundo na mudança da mente. E quando a mente muda a gente anda pra frente. E quando a gente manda ninguém manda na gente!” (Gabriel o Pensador – Até quando?)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

As duas faces da Moeda

Amanhecia e ele não dormira uma mísera hora sequer, tinha rolado a noite inteira de um lado pro outro na cama, a cabeça cheia de pensamentos inquietantes. Aquilo não era nenhuma novidade, perdera a conta de quantas vezes isso tinha acontecido somente naquele mês. Quando tinha sorte dormia três, talvez quatro horas numa noite a ao amanhecer tentava lembrar de algum motivo que fizesse valer a pena se levantar da cama e encarar mais um dia, geralmente não encontrava.
Suspira fundo, passa a mão pelos cabelos, fecha os olhos e começa a lembrar de coisas perturbadoras, nesse momento gostaria de ter um tipo de amnésia seletiva, gostaria imensamente de ter o poder de deletar de sua mente certos fatos e pessoas que passaram por sua vida, imaginava como seria se seu cérebro fosse o disco rígido de um computador e fosse simplesmente escolher um arquivo, apertar um botão pronto como num passe de mágicas tudo fosse apagado de sua mente, não gostaria nem mesmo que fosse para o arquivo lixo (que ele encarou como o subconsciente) deletaria de vez só pra não ter a possibilidade de que um dia, em um momento de fraqueza aquela informação fosse restaurada.
Achou uma comparação ridícula e sorriu, ta aí uma coisa que ele não fazia a algum tempo, sorrir, pelo menos sorrir de verdade, com gosto. Ultimamente o sorriso tinha se transformado numa formalidade, as pessoas acostumaram-se a velo sorrindo e estranhavam quando ele não estava constantemente assim. Era quase uma obrigação sua estar bem, ou pelo menos parecer bem, as vezes tinha a impressão que achavam ele algo como um E.T. ou coisa do tipo, não davam a ele o direito de se sentir mal e expressar isso. Então ele sorria, ou pelo menos fingia, mas não importava, a grande maioria das pessoas que o cercava jamais percebeu a diferença de quando ele estava bem e quando fingia estar bem. As pessoas eram egoístas demais e olhavam fixamente apenas pro seu maldito umbigo, e quando perguntavam se havia algum problema nunca estavam preparados pra ouvir um “sim estou com problemas”. Ele logo percebeu que nem todos eram como ele, que quando perguntava se alguém estava bem, realmente se interessava em tentar ajudar se pudesse. Talvez seja esse o ponto, ele pensou, essa disposição sempre a ajudar talvez fizesse que as pessoas ficassem mal acostumadas, talvez...
O pensamento é interrompido pelo despertador do celular: “maldito celular” ele pensa e sente ímpetos de tacar aquele aparelho barulhento na parede e transformar ele em mil pedaços, mas ele lembrou que ele que tinha escolhido aquele toque barulhento como despertador, e que depois seria ele que teria gastar dinheiro comprando outro, lembrar disso, principalmente da parte do gastar dinheiro o impediu de transformar a vontade em ação.
Desliga o despertador do celular e começa a meditar na vontade repentina de quebrar o aparelho e como quase transformou o telefone em um amontoado de circuitos espatifados, percebeu que estava a cada dia mais impaciente, tendo acessos de fúria constantes, mas não deixava transparecer, por fora em seu rosto e em sua atitude estava calmo e sereno como sempre, contudo por dentro se pudesse quebraria tudo ao seu redor, mas ninguém jamais percebia como ele realmente estava.
Já eram mais de 8 da manhã e o seu quarto estava mergulhado na mais completa escuridão – o quarto só não está mais escuro que meus pensamentos – ele disse pra si mesmo, tanta coisa já tinha acontecido com ele que acabou transformando radicalmente seu jeito de pensar, contudo essa diferença era quase imperceptível, pelo menos por fora, no entanto ele tinha muitos conflitos interiores e as coisas que pensava as vezes diante de momentos de crise o assombravam. Tentava lembrar em que parte do caminho se perdeu, ele que era quase infantil no seu modo de ver a vida, o que antes era sua essência hoje não passa de uma casca, se assombra com as coisas que sente vontade de fazer agora, porém ele luta contra isso como pode, mas ninguém percebe.
Suspira mais uma vez e decide se levantar, não adianta enrolar na cama por mais um tempo. Então levanta-se, lava o seu rosto, troca de roupas, toma café e sai para colocar o lixo pra fora, ao olhar o saco de lixo em seu pensamento diz não haver muita diferença entre o conteúdo do saco e ele. Ao sair na varanda dá de cara com a sua vizinha a dona Eunice que sorrindo o saúda: “ Bom dia vizinho”, no que ele responde sorrindo “Bom dia dona Eunice como vai a senhora?”  “Estou bem, provavelmente não ao bem quanto você, você está sempre sorrindo, com certeza não tem muitos problemas não é mesmo?” Então ele responde com um sorriso que foi se apagando aos poucos “a senhora nem sabe o quanto...” deixa o lixo dentro da lata e torna a entrar...

domingo, 14 de agosto de 2011

O Homem de Mil Rostos



Todas as manhãs era a mesma coisa: ele abria os olhos, espreguiçava-se em sua cama e levantava-se lentamente, ia até seu armário e escolhia o rosto que usaria naquele dia, tarefa árdua essa de ter a vida perfeita, mas fazer o que era o preço a ser pago. Hoje ele teria uma importante reunião em seu escritório, estavam pra fechar um importante negócio e não poderia haver falhas, o que usar? Optara pelo terno cinza, passava uma imagem de sobriedade e ele sabia melhor que ninguém que imagem é tudo, foi na direção das gravatas e escolheu uma gravata vermelha, indicava força e pra completar escolhera o rosto de executivo de sucesso, estava pronto.
Ao descer pra tomar café com sua esposa agiu de forma fria, o rosto de executivo de sucesso não combinava com uma atitude carinhosa, ele a recompensaria mais tarde quando voltasse, quando viesse com os louros da vitória de mais uma batalha vencida poderia por o rosto de bom marido e levá-la para jantar, havia algum tempo que eles não faziam isso... mas ela compreendia, afinal ele sustentava todos os seus caprichos e seus presente com certeza compensavam suas ausências cada vez maiores. O rosto de executivo de sucesso exigia que ele não fosse exatamente fiel, afinal ele não podia ser diferente dos outros e todos os outros grandes executivos de sua empresa tinham uma amante, problema esse que ele resolvera com a sua secretária.
No escritório sua atitude confiante e palavrório eloquente convenceram a todos, realmente não parecia o mesmo homem que estava tremendo alguns minutos antes de começar a reunião, mas ele sabia imagem era tudo e ele mais uma ver conseguiu. Ao sair da reunião colocara o rosto de amante para comemorar seu sucesso com sua bela secretária, o mesmo motel de sempre, com seu rosto de amante ele podia fazer mil loucuras, aliás, deveria fazer. A princípio ele não queria, amava a sua esposa, finalmente ela tinha aceitado engravidar e planejavam agora ter filhos, mas fazia parte da imagem de um executivo de sucesso, e ele sabia imagem era tudo.
Algumas horas depois ao sair do motel ele tira o rosto de amante e coloca o de marido dedicado, a consciência lhe pesava, era verdade que a cada dia menos, começava a enxergar em sua esposa defeitos que nunca viu antes: ela estava a cada dia mais irritadiça, e brigava com ele a toa, exigia atenção. Falava que não eram mais como antes, que ele não ligava mais pra ela e que a situação se tornava a cada dia mais insustentável. Mas ele sabia o que fazer, aparecer em casa com um belo presente, usar as palavras certas, o rosto certo e tudo se resolveria, afinal ele sabia bem imagem era tudo.
No caminho viu os pais e seus filhos brincando na praça e ao ver aquilo sorriu. Pensava que estava próximo o tempo que enfim poderia realizar seu sonho de ser pai e ficou pensando como seria o seu rosto de pai, deveria pensar logo nisso, ele queria passar uma imagem de um bom pai, isso ajudaria em casa, nos negócios e em todas as outras áreas, uma família estruturada e bem organizada sempre gerava uma boa imagem e ele sabia, imagem era tudo.
Chegando à joalheria escolhera o mais belo colar, o que chamava mais atenção, o preço não importava, ele sabia que se chegasse em casa com o presente certo, as palavras certas e o rosto certo tudo se resolveria. Além do mais logo haveria um jantar com a alta cúpula dos executivos de sua empresa, nesse jantar seria anunciado que ele se tornara o mais novo sócio daquela importante empresa e a sua esposa precisava estar deslumbrante, naquele círculo não era suficiente caráter, competência ou coisas desse tipo, na verdade isso era o que menos importava. O que realmente importava era a ostentação. Ele sabia que aquilo era fundamental pra sua imagem, e ele sabia imagem era tudo.
Ao chegar em casa viu a casa fechada e tudo apagado, alguma coisa estava errada, entrou e viu um bilhete em cima da mesa e seu conteúdo o fez perder o chão, o bilhete dizia o seguinte: “Me cansei de tentar sustentar essa mentira perfeita, essa imagem de boa esposa, feliz, abnegada, generosa e compreensiva, me cansei da falta de carinho, das traições e da falta de atenção, não posso ser comprada com presentes caros ou jantares em restaurantes badalados, você não e mais o homem que conheci um dia, não te reconheço mais nesses desses muitos rostos que você possui. Por favor me esqueça que eu farei o mesmo.”
Ao ler aquilo ele quis chorar, mas o seu rosto de homem impedia que as lágrimas caíssem então ele guardou toda a dor dentro de si. O divórcio foi um processo doloroso, mas ele usou o rosto de homem impassível e não demonstrou que sofria, poderia ter voltado atrás, poderia ter pedido perdão, poderia ter feito muitas coisas, mas aquilo, segundo ele, feriria sua imagem de homem e ele sabia imagem era tudo.
O tempo passou e ele envelheceu, teve dinheiro, sucesso, todas as mulheres que seus presentes poderiam comprar, teve carros, iates e mansões, teve muitos amigos e inimigos, e foi alvo da inveja de muitos pois todos invejavam a sua vida perfeita. Já no fim da vida percebeu que ele possuía tudo, menos o que realmente importava: a felicidade. E isso aconteceu por que ele usara por toda a sua vida muitos rostos, menos o que ele deveria ter usado, o seu.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Estranhamento(baseado no Texto de Laís Santos)

Ele abre os olhos em mais uma manhã de segunda feira, mais uma semana que se inicia tudo normal – Normal até demais – suspira enquanto com gestos mecânicos, quase inconscientes levanta-se, desliga o despertador do celular que insiste tocar uma música pavorosamente barulhenta para aquele horário, vai em direção ao guarda roupas, pega uma roupa previamente escolhida na noite anterior, uma toalha no armário do banheiro e vai tomar seu banho.

Entra no box, liga o chuveiro e deixa a água quente escorrer pelo seu corpo, e enquanto a letargia vai passando ele tem a nítida sensação de que algo está errado, há algo de diferente no ar, algo inexplicável e ao mesmo tempo estranhamente palpável, “esquisito isso” ele repete pra si mesmo enquanto ensaboa o seu corpo.
De repente parece ouvir chamarem seu nome bem baixo, foi apenas por um instante, mas ele teve a nítida impressão que alguém o chamava, desliga o chuveiro e presta atenção, mas como não ouve mais nada tenta esquecer.
“Não devia ter misturado gim com vodka ontem...” ele pensa enquanto enxuga o corpo, no entanto novamente seu nome é chamado dessa vez de forma alta e clara, amedrontado olha para todos os lados do banheiro e percebe que a voz parece vir do espelho. “Ferrou to completamente pirado”, ele pensa enquanto aproxima-se bem devagar, toma coragem e olha na direção do maldito espelho e se assusta com o que vê.
Quem era aquele que refletia ali? Os olhos são amedrontadores, parecem querer engolir tudo ao seu redor como um buraco negro nefasto. O rosto apresentava um sorriso meio que de canto de boca que denunciava ao mesmo tempo ironia, maldade, dissimulação e despertava nele os piores sentimentos possíveis. Mesmo assim, com todo estranhamento (isso, este é o termo correto, estranhamento) que a figura lhe proporcionava existia algo de familiar naquela imagem que surgia emoldurada em seu espelho. Enchendo-se de coragem e mandando às favas tudo o que a lógica e a razão lhe dizia ele pergunta a tão estranho ser: “Quem é você?” A resposta ouvida é aterradora e inacreditável “Oras, eu sou Você.”
Ao ouvir aquilo ele se petrifica, não consegue acreditar, contudo observando melhor, a imagem agora lhe parece mais nítida e sim é verdade, aquele ser amedrontador realmente é ele. Um estranho sentimento começa a se apossar dele, pobre homem há apenas alguns minutos atrás reclamava da entediante normalidade que tomava conta de sua vidinha pequeno-burguesa e agora passava por isso, pelo menos uma coisa é um fato isso não era nada normal.
Por um momento ele acredita estar sonhando, na verdade ele gostaria imensamente que aquilo fosse um sonho ruim, ele abre a torneira da pia e com a água gelada q sai banha seu rosto na esperança de que aquela imagem horrível se dissipasse do maldito espelho, contudo ao enxugar o rosto ele percebe que a maldita imagem ainda está lá e agora parece sorrir deforma debochada, como se fosse capaz de sentir a sua agonia e se divertisse com o papel patético que ele está fazendo.
Tudo isso levam horas ou apenas alguns segundos ele não sabe ao certo. Na verdade ele não sabe nada, não sabe por que suas mãos soam, seus joelhos tremem, seu coração se aperta, o peito dói - Por que, Por que essa sensação? Então ele se enche de coragem e fala, ou melhor, balbucia “Não pode ser.”
Mas é – responde a imagem refletida com uma calma aterradora. Eu sou quem você é de verdade, sou todos os seus defeitos, suas más intenções, sou tudo que existe de mau e egoísta em você, eu sou a escuridão que habita sua alma e contra quem você nunca lutou. Finalmente adquiri forças suficientes para me libertar e agora vim para reclamar um lugar que é meu de direito, finalmente tenho forças suficientes para me libertar e me livrar de você.
Impossível, ele murmura, não sou uma má pessoa, tenho muitos amigos, todos me conhecem como uma pessoa honrada, cumpridor dos meus deveres. Como assim você é a escuridão que habita dentro de mim? E como você ganhou forças? E a quanto tempo você existe?
A imagem refletida lhe responde calmamente – Oras faça-me o favor, você quer enganar a mim, ou melhor, enganar a si mesmo? Não vai me dizer que você mente a tanto tempo para os outros que acabou acreditando em sua própria mentira? Você é incapaz de um gesto nobre, pensa sempre em você mesmo sempre e esta sempre pronto a pisar nas pessoas para conseguir o que quer. Como se não bastasse isso, camufla tudo muito bem com uma grande dose de cinismo e dissimulação, a cada atitude assim você me dava mais forças, finalmente posso te destruir e tomar seu lugar. E quando isso acontecer todos finalmente saberão quem você é de verdade, a bela fantasia construída por você vai ruir como um castelo de cartas e tudo que sobrará sou eu.
Ele mal conseguia se segurar em pé e apoiado na parede escorregando lentamente, as mãos apoiadas na cabeça, não conseguia mais disfarçar o terror que se apoderava aos poucos dele, a única coisa que ele conseguia fazer era dizer que tudo aquilo não era verdade. Fazendo um esforço enorme sai do banheiro, num esforço inútil tenta fugir de tão aterradora figura, contudo como fugir de si mesmo? Entra novamente no quarto e ao olhar pro espelho do guarda roupas aberto a figura está lá, sua voz parece tomar conta do apartamento repetindo pra ele sempre as mesmas coisas. Ele tenta fechar os ouvidos, mas a voz agora vem de dentro sua cabeça.
Você não pode fugir de mim, pois você é incapaz de fugir de você mesmo, dizia tão aterradora figura. E o fazia lembrar todas as pessoas que ele iludiu, enganou, prejudicou pra poder chegar onde queira. No começo sentia-se incomodado em fazer certas coisas, mas repetia pra si mesmo: “São negócios, preciso usar todos os meios disponíveis para vencer na vida, se eu mão lutar por mim quem vai?”
Lembrava-se também de todas a mulheres que usou, jurou muitas coisas e não cumpriu nenhuma delas, de como não valorizou nada buscando apenas seus prazeres egoístas e hedonistas. Da facilidade que falava em amor, e da facilidade maior ainda de jogar as pessoas fora como uma das camisinhas que usava depois de uma noite de satisfação. “Tenho o direito de ter um pouco de prazer” repetia pra si mesmo, quando nos momentos de lucidez, que se tornavam cada vez mais raros, pensava nos rumos que estava dando em sua vida.
Tudo isso e muito mais se passava na cabeça dele, enquanto a maldita voz se fazia cada vez mais alto, aquela figura que insistia em dizer que era ele estava em todos os cantos, o desespero aumentava cada vez mais, ele iria enlouquecer, ou será que já tinha enlouquecido? Nada fazia muito sentido agora, já não raciocinava, lembra-se da arma que guardava na gaveta de seu quarto, iria acabar com ele, mas como acabar consigo mesmo? Pega a arma ela está carregada, aponta a arma na direção do espelho e a imagem sorri – “eu vou acabar com o seu sorriso maldito” – ele dizia, “faça o que tem de fazer” lhe respondia a imagem. Mirava a cabeça da imagem no espelho( ou seria sua própria cabeça)? O sol brilha, pássaros cantam, crianças brincam no parque de repente o estampido seco, o baque do corpo e novamente o silêncio
Algumas horas depois todos os vizinhos não paravam de comentar: “nossa por que será que ele fez isso?” “Era uma ótima pessoa, incapaz de fazer mal a uma mosca.” “Por que será que um homem tão bom como ele meteria uma bala na própria cabeça?” “Quem sabe não foi alguma desilusão amorosa?” “Talvez foi traído por algum amigo e não agüentou o baque” “Ou quem sabe  algo relacionado ao seu emprego?” “Pensava sempre nos outros primeiro, com certeza existem poucas pessoas como ele por aí...”

sábado, 11 de junho de 2011

Considerações sobre Vida e Morte(ou pensamentos mórbidos dentro do ônibus)



Ontem ao voltar de um evento de poesias, sentado no ônibus, comecei a pensar sobre quando morresse quantas pessoas iriam ao meu enterro (de vez em quando tenho esses pensamentos meio mórbidos), eu me lembrava do enterro de minha avó, a quantidade de pessoas lá existentes e da reação das pessoas. O enterro da minha avó me veio â cabeça justamente por ter sido o único enterro que fui em toda minha vida.
E o motivo pra isso é bem simples, eu particularmente não gosto muito do clima de cemitérios em enterros, todo aquele ambiente de dor, saudades, falta, em alguns o desespero, tudo isso me aflige grandemente, (se pudesse faltaria ao meu próprio enterro, por motivos óbvios), só fui ao enterro da minha avó por que ela foi, e continua sendo mesmo depois de morta, uma pessoa muito importante pra mim.
É impossível – pelo menos pra mim – pensar na morte sem ver a outra ponta da corda, a vida. E creio que assim como eu muitas pessoas não iriam ao enterro de pessoas que não que não fossem muito especiais a ela, e assim voltamos ao começo das minhas divagações: e se todos os meus “amigos, conhecidos e parentes pensassem como eu quantas pessoas acompanhariam meu enterro?
Rapidamente meu pensamento tomou outro rumo e comecei a divagar sobre a trajetória da minha vida até aqui. Conheço inúmeras pessoas, sou cumprimentado o tempo todo por onde ando, as pessoas sorriem pra mim e eu por ser naturalmente sociável retribuo (ainda que não me lembre quem é o que por sinal acontece muitas vezes) tenho muitos conhecidos vários colegas alguns amigos, contudo será que marquei de alguma forma todas essas pessoas, e ainda que tenha marcado será que foi positivamente?
Enquanto escrevo vários rostos me vêm à cabeça, todas pessoas que me marcaram, positiva ou negativamente, algumas se pudesse não sairia de perto, já outras gostaria de esquecer, um terceiro grupo gostaria de jamais ter conhecido e provavelmente não iria aos seus enterros.
Ao fazer esta retrospectiva lembro que no meio do meu caos interior, onde no auge da minha frustração comigo mesmo, com as coisas ao meu redor, com outras pessoas, com a minha realidade, com o Divino e o terreno, quantas vezes a morte me pareceu uma solução não apenas útil, como digna e por que não dizer poética, simplesmente dormir para não mais acordar, deixando toda a dor e frustração dessa vida caótica para trás. Deixando de lado considerações metafísicas sobre a existência ou não de uma realidade superior ao mundo material que vivemos – isso pode ser tema de um outro papo – agora que não estou mais no olho do furacão e posso pensar calmamente vejo que desejar morrer apenas para escapar dos próprios conflitos interiores é de uma covardia atroz. E olhando sob este ponto de vista a morte perde toda a sua dignidade poética e se reveste do manto da ignomínia daquele que foi incapaz de aprender com os próprios erros.
Viver é sempre uma aposta, um desafio que vai além da simples existência e compete a nós decidirmos se vamos ser meros espectadores nesse grande palco que a vida nos proporciona, ou se vamos fazer nossa existência valer à pena, marcar as pessoas positivamente e deixar mais que pegadas no chão atrás de nós, dependem de nós o tamanho e a qualidade do nosso legado.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Sobre o Tempo



Dias, minutos, meses, segundos, séculos e horas, enfim o Tempo. O tempo é algo que sempre nos preocupou, ele nos limita, nos cerceia, comanda nossa vida, nossos atos, condiciona nossa memória é através e por ele que nos conectamos ao mundo, o tempo é nosso “senhor”.
Nossa relação com esse “senhor” é das mais conflituosas possíveis, por vários motivos. Um deles é que o tempo não é uniforme, pelo menos não para nossa percepção. A forma como percebemos a passagem do tempo pode variar de acordo com nosso estado de espírito, nosso humor, o ambiente em que estamos inseridos, a atividade realizada, enfim o tempo, ou pelo menos a percepção da sua passagem é algo extremamente relativo. Um bom exemplo disso é como a percepção do tempo pode variar se você está numa fazenda, sem as pressões impostas pela acelerada vida urbana e se você está numa grande metrópole imerso em compromissos e responsabilidades com que a vida urbana nos oprime.
Os gregos tinham duas palavras para definir o tempo, Chronos e Kairós. O tempo chronos é este em que estamos inseridos, onde nós dividimos em passado, presente e futuro e através dele organizamos toda a nossa vida. É no tempo chronos que existem as mudanças, os conflitos, no tempo chronos se dão as guerras, as grandes revoluções, no tempo chronos se dão início às lendas e criam-se heróis e mitos, no tempo chronos desenrola-se a História, o tempo chronos é identificado com a mudança, é no tempo chronos que está nossa vida.
Contudo não é possível falar de vida sem falar de morte, a morte também está no tempo chronos. A morte, assim como a vida se dá aqui nessa dimensão de tempo em que estamos inseridos e a sua percepção, assim como a percepção da passagem do tempo também é relativa. Alguns acham que o tempo é uma prisão, estão cansados das vicissitudes e desafios impostos pela vida e encaram a morte como uma libertação, grande parte dessas pessoas tem uma perspectiva de enxergar a vida do prisma da eternidade, como diria o filósofo holandês Spinoza, buscam outra dimensão do tempo, o tempo kairós onde os limites de passado, presente e futuro não existe.
Na realidade o tempo como nós o pensamos não existe, tempo é apenas mais uma das muitas categorias que criamos para nos guiarmos em nossa jornada nesse mundo, o tempo só existe por que nós existimos sem o ser humano na terra não haveria necessidade do tempo. Nosso calendário por exemplo, nós ocidentais estamos no ano de 2011, pois segundo o calendário que usamos passaram-se 2011 anos desde que Jesus nasceu, o nascimento de Jesus Cristo é o marco para como nós enxergamos o tempo, contudo os judeus contam o tempo a partir da peregrinação de Abraão, o que faz com que contem o tempo de forma diferente, os muçulmanos a partir da saída de Maomé de Meca, isso sem falar que os meses podem ser solares ou lunares, os anos bissextos onde se acrescentam dias no calendário e etc..
Há muito tempo existe dia e noite, primavera, verão outono e inverno, e considerando que o tempo está identificado com a mudança pode parecer loucura que eu esteja falando que ele realmente não exista a não ser como um conceito, uma das muitas categorias que criamos para nos situar no mundo. Mas o que de uma perspectiva minimalista pode parecer que muda ao enxergarmos de um prisma mais amplo vemos que não é bem assim. Só é possível pra nós contar o tempo, enxergar a mudança, por que de um prisma mais amplo as coisas na natureza não mudam. Quanto mais nos afastamos do tempo chronos e tentamos apreender o tempo kairós através da abstração vemos que no fim das contas o que temos por mudança na verdade são permanências como bem oberservou o rei e pensador judeu Salomão: Uma geração vai, outra geração vem; mas a terra pra sempre permanece. E nasce o sol e põe-se o sol e volta para o lugar de onde nasceu.(...) O que foi isso é o que há de ser, e o que se fez isso se tornará a fazer; de modo que não há nada de novo debaixo do sol.”  


segunda-feira, 11 de abril de 2011

Da Liberdade Ilusória

Liberdade, conceito amado por todos, o homem busca liberdade, busca ser livre. Liberdade: Autonomia, Ausência total de Determinação ou Servidão, Independência, Espontaneidade, segundo alguns ser livre é agir segundo a própria Natureza, dar vazão aos seus desejos e anseios mais profundos. Podemos dar inúmeras explicações e inventar inúmeras formas de conceituar este estado que segundo Sartre é essencial no ser humano, mas afinal o que é realmente Liberdade? Será possível assumir algum dos conceitos acima de forma plena? Vamos analisá-los e descobrir.
Autonomia, direito de o indivíduo estabelecer suas próprias normas, e assim tomar suas decisões pautadas apenas em sua razão. Temos no presente caso, segundo minha opinião, uma super valorização da razão como capaz de ser guia absoluta de nossas ações. Não creio que exista no mundo algum ser humano capaz de se libertar totalmente de suas emoções para se guiar apenas pela razão, mesmo porque, hoje os estudiosos concordam que a razão apresenta limites bem demarcados e assim, ela por si só é insuficiente pra guiar nossas ações.
Ausência total de Determinação ou Servidão, ou seja, Independência total de outros indivíduos e do meio. Uma grande ilusão, não é possível deixar de sofrer determinação e influência do meio em que vivemos, somos moldados pelo meio e acabamos por nos encaixar no “sistema”. Por exemplo, nosso pudor em mostrar o corpo desnudo, enquanto na África mulheres andam com os seios descobertos tranquilamente, nem precisamos ir tão longe, basta ver algumas tribos do interior da Amazônia brasileira.
E essa determinação social muitas das vezes é inconscientemente reproduzida a ponto de acharmos natural, nós naturalizamos essa regra de conduta, esse acordo tácito, esse contrato social, usando a linguagem de Rousseau, até que ponto somos determinados pelo meio é outro ponto a se discutir, mas ignorar a determinação social que age em nós como a gravidade age nos corpos é absurdo.
Outro erro, e este é característico de nossa geração, é encarar a liberdade como total ausência de regras, leis, valores morais e estatutos, nesse sentido Liberdade acaba por ganhar um caráter negativo e é geralmente ligada a infração e transgressão. Assim ser livre é transgredir as regras, e isso pode trazer conseqüências funestas tanto para o indivíduo quanto para o meio em que ele está inserido.
Logo, nesse sentido, é impossível ser livre, pois sempre sofreremos algum tipo de determinação ou coação, seja ela explícita (as leis) ou implícita (normais sociais de conduta), estão sempre nos “moldando”, existem sempre várias forças agindo sobre nós e nós reagimos a elas como bem determina a terceira lei de Newton. Então o que é realmente ser livre? Ser livre não é estar livre da determinação social, e sim ter conhecimento dela e poder escolher se segue o fluxo ou não. É saber a hora de ir contra a multidão, é a possibilidade de escolha, a verdadeira condição de Liberdade não está em transgredir as regras só por transgredir num acesso de rebeldia sem causa, e sim tendo a possibilidade de não seguir algo escolher caminhar em determinada direção. Somos livres inclusive quando podemos escolher nos submeter a vontade que não seja a nossa por algo maior, os animais seguem sua própria natureza e nem por isso são livres, pois sofrem a determinação do instinto, apenas o Homem tem a possibilidade de ser realmente livre, mas só é livre de verdade quando pelo conhecimento das determinações e coações que agem nele escolhe o que fazer. Por mais paradoxal que possa ser só somos livres quando servimos conscientemente